Envie missionários: seja um Cristão Global

Amado, procedes fielmente em tudo o que fazes para com os irmãos, e para com os estranhos, que em presença da igreja testificaram do teu amor; aos quais, se conduzires como é digno para com Deus, bem farás; porque pelo seu Nome saíram, nada tomando dos gentios. Portanto, aos tais devemos receber, para que sejamos cooperadores da verdade. (3 João 1:5-8)

Gaio, aquele que estava recebendo a carta de João, foi reconhecido como alguém que procede fielmente para com os irmãos, de modo que estes falavam muito bem dele diante da igreja. O que estava acontecendo? Alguns pregadores itinerantes e missionários haviam passado pela casa de Gaio e haviam recebido um amor especial. João diz que ele era um “enviador” (propempo), pois encaminhava os missionários em suas jornadas [1]. Em Tito 3:13, nós possuímos um verso que mostra como propempo era usado quando relacionado ao envio de missionários: “Acompanha com muito cuidado Zenas, doutor da lei, e Apolo, para que nada lhes falte”. O propósito de Deus é que enviemos nossos missionários de modo que seja digno de Deus, cuidando para que nada lhes falte – quer seja dinheiro, orações ou pastoreio. Isso é um mandamento do Senhor (“Deveis”, 3 Jo 8), de modo que “o nome de Deus está em jogo no modo como tratamos nossos missionários”, como declarou Tom Steller [2], encerrando o incrível tratado sobre missões escrito por John Piper. Ele resume muito bem o ideal defendido aqui:

Um cristão global é alguém que está tão absorvido pela glória de Deus e pela glória do seu propósito universal que resolve se alinhar com a missão de Deus para encher a terra com o conhecimento da sua glória como as águas cobrem o mar (Hc 2.14). Tudo que o cristão global faz, ele faz tendo em vista a santificação do nome de Deus e a vinda do seu reino entre todos os povos da terra. A oração fervorosa do cristão global é “Louvem-te os povos, ó Deus; louvem-te os povos todos” (Sl 67.3). Assim, quer sejamos aqueles que enviam ou aqueles que vão, glorifiquemos a supremacia de Deus nas missões, dando as mãos e tomando parte no refrão dos tempos antigos: “Alegrem-se os povos!” [3]

Infelizmente, quando falamos de ajudar financeiramente aos missionários, somos vistos como sanguessugas, tentando tomar religiosamente os bens de pobres trabalhadores. É muito correta a frase atribuída a Martinho Lutero, de que “três conversões são necessárias: a conversão do coração, a conversão da mente e a conversão da carteira”. Como cristianizar o modo que usamos nosso dinheiro, sabendo que este é um dos grandes ídolos de nosso século? Creio que nos será útil meditar no que Charles Edward White conta sobre o modo que John Wesley usou seus bens [4]. Possuindo, muito provavelmente, o maior salário já recebido na Inglaterra (seus bens poderiam ser calculados na quantia total de 60 milhões de reais hoje), ele experimentou uma vida de grandes privações a fim de usar o máximo de seus recursos para a glória de Deus.

Essa perspectiva teve início em Oxford, quando, em um dia muito frio de inverno, Wesley havia acabado de comprar alguns quadros para colocar em seu quarto. Neste momento, uma das camareiras chegou à sua porta, e ele notou que ela não tinha nada para se proteger, exceto uma capa de linho. Ele desejou ajudá-la a fim de fornecê-la dinheiro para comprar um casaco, mas percebeu que havia sobrado bem pouco depois da compra dos quadros. Ele ficou perplexo com o pensamento de que Deus não havia se agradado pela forma como havia gasto seu dinheiro. Ele imaginou Deus dizendo a ele: “Tu adornaste as paredes com o dinheiro que poderia ter protegido essa pobre criatura do frio! Ó justiça! Ó misericórdia! Esses quadros não são o sangue dessa pobre empregada?”. White escreve:

Talvez, como resultado desse incidente, em 1731, Wesley começou a limitar seus gastos para que pudesse ter mais dinheiro para dar aos pobres. Ele registrou que, em determinado ano, sua renda fora de 30 libras, suas despesas, 28, assim, tivera duas libras para dar. No ano seguinte, sua renda dobrou, mas ele continuou administrando seus gastos para viver com 28, desse modo, restaram-lhe 32 libras para dar aos pobres. No terceiro ano, sua renda saltou para 90 libras. Em vez de deixar suas despesas crescerem juntamente com sua renda, ele as manteve em 28 e doou 62 libras. No quarto ano, recebeu 120 libras. Do mesmo modo que antes, suas despesas se mantiveram em 28 libras e, assim, suas doações subiram para 92.

Wesley acreditava piamente que o cristão não deveria apenas dar o dízimo, mas, uma vez suprido sua família, entregar toda sua renda excedente aos necessitados – e não só isto, ele cria que, com o crescimento da renda familiar, o que deveria aumentar não era o padrão de vida a ser seguido, mas sim o padrão de doações a serem entregues.

Essa prática começou em Oxford e continuou por toda a sua vida. Mesmo quando sua renda ultrapassou mil libras esterlinas, ele viveu de modo simples, doando rapidamente seu dinheiro excedente. Houve um ano em que seu salário superou 1400 libras. Ele viveu com 30 e doou aproximadamente 1400.

Wesley limitava suas despesas, não adquirindo coisas que eram tidas como essenciais para um homem de sua posição. Em 1776, os fiscais de impostos inspecionaram suas restituições e lhe escreveram a seguinte sentença: “Não temos dúvidas de que o senhor possui algumas baixelas de prata para cada item que o senhor não declarou até agora”. Eles queriam dizer que um homem proeminente como ele, certamente possuía alguns pratos de prata em sua casa, e o acusavam de sonegação. Wesley lhes respondeu: “Tenho duas colheres de prata em Londres e duas em Bristol. Essa é toda a prata que possuo no momento e não comprarei mais prata alguma, visto que muitos ao meu redor almejam por pão”.

Outro bom exemplo a ser observado é o do inglês Charles Thomas Studd, um dos maiores desportistas do final do século 19. Tornou-se milionário quando herdou da família a fortuna de 29 mil libras esterlinas, o que era uma riqueza grandiosa para a época.  Determinado a investir na obra de Deus, enviou 5 mil libras para o missionário Hudson Taylor (o primeiro missionário no interior da China), 5 mil libras para o pastor William Both (fundador do Exército da Salvação), 5 mil para D. L. Moody (que usou o dinheiro para criar o Instituto Bíblico Moody), fora outras doações.

Depois destas ofertas, as 3.400 libras esterlinas que lhe sobraram foram entregues a sua esposa, no dia do casamento, que acabou doando a quantia aos pobres. Ela disse: “Jesus pediu ao jovem rico que desse tudo aos pobres”, e Studd completou: “Agora nos achamos na situação de poder dizer que não temos ouro nem prata”. Depois de algum tempo, o próprio Studd foi chamado ao campo missionário, para terras como China, Índia, Sudão e Congo. Ele dizia: “Se Jesus é Deus e Ele morreu por mim, então nenhum sacrifício pode ser muito grande para nós”. A mensagem deixada por Studd era simples: enquanto a maioria investem em bens materiais, outros investem no Reino de Deus. [5]

Uma coisa que me deixa espantado com a carta de Paulo aos Filipenses é o modo como eles escolheram o sofrimento: “pois a vocês foi dado o privilégio de, não apenas crer em Cristo, mas também de sofrer por ele” (Fp 1:29). E que sofrimento foi este? Parte dele era devido à oposição ferrenha dos inimigos da fé (v. 28). No entanto, este privilégio da dor também veio por meio do desprendimento financeiro do povo de Filipos, a fim de suprir as necessidades de Paulo (Fp 4:10-20).

Será que algum missionário, nos dias de hoje, pode te dizer: “fizestes bem em tomar parte na minha aflição” (Fp 4:14), como Paulo disse aos Filipenses? Nossas ofertas são sacrifícios entregues a Deus, que rendem louvor e ações de graças por parte da igreja e o missionário enviado. Espero que muitos ministros possam enviar para suas igrejas locais, agencias missionárias ou mantenedores individuais palavras parecidas com a do Apóstolo:

Não que procurei dádivas… Mas tenho tudo; tenho-o até em abundância; cheio estou, depois que recebi de Epafrodito o que da vossa parte me foi enviado, como cheiro suave, como sacrifício aceitável e aprazível a Deus. (Fp 4:17,18)

Claro que nem todos precisamos viver vidas de total privação a fim de contribuir com a obra missionária. Porém, em tempos que não conseguimos ofertar mais que 10% de nossa renda (às vezes, nem isso), o testemunho destes homens nos dá um bom pontapé para que comecemos a abrir mão de nossos ganhos excedentes a fim de sermos cooperadores com a verdade: cristão preocupados com o alcance global da glória de Deus. E se eu puder dar uma dica de onde investir, que tal estar envolvido com a pregação em escolas do Nordeste? É Só clicar aqui para saber mais.

 

Fonte: Yago Martins

 


[1] Propempo aparece nove vezes no Novo Testamento, e sempre em um contexto missionário. Veja, especialmente, Atos 15:3, Romanos 15:24, 1 Coríntios 16:6,11, 2 Coríntios 1:16 e Tito 3:15.

[2] PIPER, John. Alegrem-se os povos: A Supremacia de Deus em missões. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2001, p. 293.

[3] PIPER, John. Alegrem-se os povos: A Supremacia de Deus em missões. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2001, p. 204.

[4] WHITE, Charles Edward. O que Wesley Praticou e Pregou sobre o Dinheiro?. Disponível em: <http://www.editorafiel.com.br/artigos_detalhes.php?id=353>. Acesso em: 7 ago. 2012.

[5] Informações tiradas da seção “Heróis” da revista Povos, edição número 15, p. 63.

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