Por que lá e não aqui? Enfrentando dogmas missionários

Algumas pessoas nos perguntam por que desejamos trabalhar na Ásia. Via de regra, o argumento delas é simples: no Brasil, há tantas necessidades. Por que lá e não aqui? Essa premissa é mais comum do que a gente imagina. A nação de origem, necessariamente, é posta em relevância em detrimento de terras mais distantes, porque nossas necessidades são concretas e estão à nossa vista.

Outro grande discurso que constantemente ouvimos é o fato de que, sem que haja uma experiência concreta em nossa nação com plantação de Igrejas, o obreiro transcultural em preparo estaria desqualificado para uma experiência no exterior.

Brevemente, queremos comentar essas duas questões e refletir sobre a prática da missão que a Igreja Brasileira tem construído, bem como, os dogmas que essa cria na prática da Missão.

1) Na pesquisa missionária (não a Missiológica, mas aquela feita em campo ou pelos missionários que também são teólogos), geralmente, são debatidas e definidas as classificações de campo carente, campo alcançado, não alcançado, não engajado, etc. Definem-se critérios de análise da prática da missão baseados na realidade prática da obra missionária. Longe de ser pragmatismo, é importante dizer que, hoje em dia, há muitos teólogos no Campo Missionário, graças a Deus!

Assim, se olharmos o Brasil segundo essa epistemologia (isto é, conforme essa variedade de conhecimentos produzidos), esse é considerado uma nação alcançada. Por quê? Porque, mesmo havendo áreas extremamente carentes do Evangelho no Brasil, como a Amazônia, Nordeste e regiões do Rio Grande do Sul, por exemplo, em nosso país, nós temos um número de cristãos suficiente para evangelizar toda a nação, todos seus extremos e ainda sobra muito material humano para “exportar”!

O problema missionário brasileiro é a má distribuição dos crentes e não a ausência deles!

Logo, o que precisamos ver no Brasil é um envolvimento dos crentes em geral na prática da Evangelização. Do ponto de vista vocacional, criar um link forçado entre os que são chamados ao campo transcultural em função das necessidades internas é um erro e um ato cruel, além de ser uma visível priorização de nossas próprias necessidades em detrimento das do outro.

É importante dizer que, o campo transcultural, nos casos de Ásia e África em particular, vivem carências profundas do Evangelho, em termos de falta de obreiros, igrejas e, às vezes, até mesmo de falta de Bíblias traduzidas. Em muitas situações, há etnias inteiras, com até mesmo milhões de pessoas, que nunca ouviram o Evangelho uma única vez sequer, e estão sem nenhum obreiro cristão atuando entre eles! No nosso entendimento, esses agrupamentos de pessoas deveriam ser prioridade para a Igreja no Ocidente.

Logo, o Sertão Nordestino ou as comunidades miseráveis das grandes cidades jamais poderiam ser consideradas “uma África aqui do lado”. Isso é um desserviço à Obra Missionária e uma manipulação barata em benefício da expansão das nossas igrejas locais.

2) Primeiro, cremos que seja relevante conceituarmos algumas coisas. Plantar Igrejas é missões? É incômoda essa pergunta, não é?

No entanto, essa pergunta também é muito importante. Essencialmente, Missões é uma doação de recursos humanos, financeiros, de tempo, de vida com Deus a um determinado grupo de pessoas… É Evangelismo, é ação social, é aconselhamento, é pregação e uma série de outras coisas mais. Em Missões, podemos e devemos plantar novas igrejas também. Porém, expansão denominacional não necessariamente é Missões! Fazer nossa denominação crescer, ainda que seja válido e importante, pode ser algo que não se encaixa naquilo que é entendido por “Missões”, pois, acaba por atender a interesses específicos de um agrupamento de Igrejas ou de uma Doutrina particular.

Por favor, fiquem atentos! Não estamos dizendo aqui que não é bíblico e nem importante plantar Igrejas da nossa denominação. Jamais diríamos isso! Porém, assim como Evangelismo no bairro ou a realização de Cultos ao ar livre, fazem parte da vida normal e regular de Igrejas, isso não é uma tarefa específica a qual enviamos pessoas para uma missão de anunciar o Evangelho, particularmente, para não convertidos. Deu para entender a diferença?

Assim, plantar igrejas é parte da nossa responsabilidade como presbiterianos, batistas, metodistas, assembleianos, quadrangulares, etc.

Plantar igrejas envolve uma profunda sensibilidade quanto ao “ethos” da comunidade alvo. Se eu planto uma igreja no sertão nordestino, por exemplo, minha abordagem deve levar em consideração o Catolicismo Romano, o grau de escolaridade das pessoas, a linguagem religiosa, a crítica aos sistemas locais; tudo isso, é muito importante para que a igreja realmente seja plantada e seja legítima no meio da comunidade, e não um elemento “alienígena” por ali. Se o obreiro em questão é da região, a realidade será uma. Se for um gaúcho, descendente  de alemães será outra completamente diferente, ainda que ele fale português sem sotaque e respeite a cultura local.

Em cada cultura, o conceito de Igreja muda e o de culto também. Numa aldeia indígena, o culto tem certas etapas, mas, em São Paulo, na zona sul, terá outras, e entre tribos da Indonésia, outras completamente diferentes. Logo, serão realidades de igreja e culto totalmente distintas.

Levar a experiência ocidental e brasileira para a uma comunidade não alcançada na Ásia ou na África, por exemplo, acreditando que a primeira treina para a segunda é, no mínimo, uma enorme ingenuidade. As realidades não são apenas diferentes, mas, em muitos casos, são até opostas. Se o obreiro se sente seguro e experiente, em função dessa experiência anterior, as chances de um desastre são gigantescas. Já houve inúmeros casos de obreiros precisarem ser removidos de área por essa ser a única solução para consertar o estrago que o Evangelho sofreu pela falta de sensibilidade cultural de alguém despreparado, antropologicamente falando.

Esses erros podem ampliar a resistência de alguns povos ao Evangelho. Há também casos em que os obreiros passam anos falando sobre Deus, sem perceberem que o entendimento daquela comunidade sobre a palavra “Deus” se remete a um conceito pagão e anti-bíblico. Assim, quanto mais ele prega e ensina, pior se torna aquela obra em termos bíblicos e teológicos, pois, sem querer, ele está fortalecendo uma heresia.

Todavia, não queremos parar nos aspectos negativos. Afinal, há grandes benefícios em se plantar igrejas como parte do processo de treinamento. Eis alguns deles:

a)      O obreiro aprende mais e mais sobre dependência de Deus e o papel da oração na vida do obreiro e da nova igreja;

b)      O obreiro vai estudar mais e ter uma prática de preparação de estudos, baseado no perfil do público;

c)       O obreiro vai perceber a importância dos pequenos começos, da perseverança, e o preço a se pagar pelo povo de Deus.

d)      O obreiro vai exercitar a piedade, pagando o preço de orar por pessoas, ouví-las, entender seus dramas e de envolver-se com a história de cada um.

Plantar Igrejas em seu contexto cultural, antes de uma experiencia transcultural, é muito importante, mais por razões devocionais que por razões metodológicas! O obreiro transcultural que entende isso e se submete a esse processo, sairá tremendamente edificado. Porém, é preciso amadurecermos em relação aos paradigmas em torno dessa questão.

Assim, nosso apelo é um só. Não tornem o processo de formação de obreiros algo mecânico. Cada caso é um caso!

É importante percebermos que, nem sempre, uma mesma pessoa terá uma desenvoltura brilhante em todos os casos. Se seu chamado é X, nem sempre ele será brilhante sendo submetido a uma determinada realidade Y.

É preciso amor e piedade na formação de missionários, além de ser também premente termos cuidado para que nosso coração e nossa razão não se deixem enganar, nem por dogmas, nem tampouco por paradigmas.

Comments
  • Paulo
    Responder

    Ótima abordagem.
    Parabéns.

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